terça-feira, 9 de outubro de 2007


Os Três Gunas

Tudo que existe faz parte do vasto e universal jogo da energia cósmica. Não há nada que tenha existência independente, pois é possível demonstrarmos que cada ‘’coisa’’ tem elos diretos com as outras ‘’coisas’’. Independência e individualidade são mitos de origem humana. O ser não consegue viver sem o ar. O ar existe porque a massa planetária da Terra e sua velocidade rotacional (bem como uma infinidade de outros fatores) lhe permitem envolver-se num manto de gases. E a própria Terra existe graças ao Sol, o qual por sua vez, existe como parte da galáxia. A galáxia existe como parte do macrocosmo. . . .Na Índia, há milhares de anos cada pessoa tem percebido seu papel individual como agente interdependente dentro de um drama macrocósmico. O papel da humanidade é interpretado como uma manifestação da mesmo força primordial que fez surgir os sóis e as galáxias. A humanidade é vista sob a luz de uma cosmologia e de uma ontologia (a ciência do ser enquanto ser) complexas e significativas.
É essa cosmologia que está subjacente a toda a ciência clássica hindu, incluindo a ciência da vida cotidiana. A tríade que existe no cerne de cada fenômeno são os três Gunas, chamados de:


Tamas (inércia)
Rajas (atividade)
Sattva (essência)


Toda manifestação surge de uma origem comum, prakriti. Essa fonte primordial dos seres pode ser comparada a uma árvore invertida, cujas raízes estão para cima e o tronco e ramos, para baixo. A parte da árvore que está oculta da percepção sensorial humana é a raiz, mool-prakriti (mool = raiz). É dessa raiz que surge toda a criação. Mool-prakriti, a existência primária, é o estado completo do equilíbrio. Prakriti não tem gênero, nem identificação, nem forma – não tem qualquer qualificação em sua natureza. Nele a natureza é indiferenciada, está além de todas as percepções sensoriais humanas. Tudo nesse estagio, é sattva, essência. Essa geração de espaço é o primeiro passo do ciclo da criação. Durante um tempo, o espaço jorra livremente, como água fluindo livre para o oceano. Mas quando a manifestação se inicia, o impulso é inexoravelmente descendente. À medida que as correntes do espaço são geradas, um bloqueio em seu fluxo se desenvolve à medida que uma corrente revoluteia sobre si mesma. Esse bloqueio, essa obstrução no fluxo do espaço, é tamas (inécia). É tamas (inércia) a causa primeira da criação porque, sem obstrução, as freqüências sáttvicas nunca começariam a descida do sutil ao denso. A presença de tamas (inércia) quebra a uniformidade do fluxo do espaço, formando um circuito, um sistema fechado formado a partir das freqüências de prakriti raiz, é chamado ‘’ovo dourado’’ (hiranya garbha, em sâncrito). Enquanto prakriti está inerte, imóvel, nada existe a não ser sattva (essência) puro. Mas a geração do espaço cria movimento, atividade (raja). Está na natureza da criação que, começado o jogo da ação, a energia flui inevitavelmente da cima para baixo, do sutil para o denso. Uma vez começada a ação, correntes de energia se formam. E, com a passagem do tempo, é inevitável que uma corrente obstrua a passagem da outra – formando um revoluteio, uma pequena ondulação no curso da evolução além da percepção. Somente os efeitos de sua ação podem ser vistos.

A Esfera de Ação e o Poder dos Gunas

Sattva (essência) é capaz de produzir luz. É na luz de sattva que vemos os nossos sonhos. Luz vista no estado onírico é a luz de sattva (essência). Os olhos e todos os outros orgãos sensoriais estão fechados, porém a escuridão não governa os sonhos. Por essa razão, sattva (essência) está ligado ao hormônio melatonina, produzido pela glândula pineal. Sendo capaz de reproduzir luz, sattva (essência) remove a confusão ao proporcionar uma clara perspectiva. Rajas (atividade) tem o poder de dar energia. Este guna motiva e inspira a pessoa a trabalhar. Sua natureza é a dor, pois a dor só surge a partir da atividade. Tamas (inércia) para. Este guna é a fonte da resistência, dos obstáculos e das obstruções.

A Função dos Gunas

Os gunas tentam dominar uns aos outros sucessivamente. Está bem claro que um guna domina num momento, enquanto outro assume o comendo mais tarde. Quando sattva (essência) domina, rajas (atividade) e tamas (inércia) são impelidos para o fundo da cena. Nesse momento, desaparecem todos os sentimentos de inspiração para realizar alguma ação, bem como o apego. Desaparece toda a inspiração para o trabalho, toda ignorância. Não há nada para fazer, nenhum lugar para ir, nenhum trabalho ao qual se atirar, nenhuma vontade para comer, nenhuma vontade de dormir, nenhuma confusão. Tudo que permanece é luz e bem aventurança. Quando rajas (atividade) domina, ele impele sattva (essência) e tamas (inércia) para o fundo da cena. Há então um grande ímpeto de energia e um imenso desejo de realizar trabalho, projetos e atividade. A ação é o modo dominante. Quando tamas (inércia) domina, rajas (atividade) e sattva (essência) são impelidos para os bastidores. Nesse momento, a pessoa sente preguiça e apego. Ela não se incomoda de ir a algum lugar, mas prefereria permanecer onde está.

A Natureza dos Gunas

Sattva (essência) é luz – luz em peso, luz em radiância e brilho, e luz em natureza. Rajas (atividade) é atividade, e seu papel é manifestação. Quando rajas (atividade) domina o corpo, a pessoa experimenta grande entusiasmo, excitabilidade e energia para o trabalho. É rajas (atividade), por sua natureza mercurial, que excita sattva (essência) a dar luz. É tamas (inércia) que mantém a ignorância, o medo e a superstição. Tamas (inércia) obscurece a verdade por trás da ilusão e faz a pessoa a ter medo de conhecer esta verdade. Tamas (inércia) é procrastinação, falta de incentivo e sono. Enquanto sattva (essência) é propósito e rajas (atividade), energia, tamas é inércia, a força que puxa para baixo implorando que abandonemos a atividade. Em sattva (essência) e tamas (inércia), a pessoa abandona o mundo dos sentidos. Mas em sattva (essência), ela se une à luz; em tamas (inércia), ela se une à escuridão. Sattva (essência) é leve, tamas (inércia) é pessado. Tamas (inércia) da estabilidade e forma a pedra fundamental. Rajas (atividade) cria atividade e proporciona inspiração. O jogo da criação é realmente um jogo entre os gunas e os cinco elementos. Esses oito, sob o olhar da Consciência Una, interagem para criar todo o universo dos nomes e formas.Tudo o que existe contém dentro de si algo com o qual podemos identificar sentimentos de prazer, dor e apego – sattva-rajas-tamas.
Paulo Cesar Ruchinski
Espaço Anam Cara
paulo@anamcara.com.br

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